Sunday, June 11, 2006

Quando eu for Grande

Este é um excerto da rúbrica que João Aguiar escreveu na revista Super Interessante de Junho de 2006:

" Que estranha coisa: no passado dia 25 de Abril, houve quorum na Assembleia da República! E era um feriado! Também, é verdade que não havia votações, de modo que a sessão não dava muito trabalho: era só lá estar, mais nada. Ainda por cima, não havia aplausos obrigatórios. Nem sequer foi preciso cantar o hino nacional, pois para isso havia um coro, desafinado mas cheio de boa vontade.

O leitor terá compreedido que as linha que atrás leu têm como inspiração próxima aquele edificante acontecimento ocorrido nas vésperas da Páscoa, quando não foi possível realizar votações no Parlamento porque demasiados senhores deputados, depois de assinarem o ponto, se botaram ao fresco - uns porque foram pais, outros porque foram avós, outros por motivos pessoais mas mui prementes; e houve inda aqueles que estavam a fazer «trabalho político relevante» (ah, como eu gosto desta expressão) e encontravam-se, pois, a relevar em qualquer outro lado. [note-se que isto foi nas vésperas da Páscoa...]

(...) recordo, também, aquele outro incidente, igualmente edificante, ocorrido quando um clube de futebol jogava em Espanha e houve um número apreciável de senhores deputados que decidiram transferir-se das bancadas de S. Bento para as de um estádio espanhol, sendo que, para completar a coisa, muitos deles consideraram que, ao faltar à sessão da Assembleia, estavam, assim, a cumprir função política (o tal «trabalho relevante» com certeza) e deviam, por conseguinte, ter a falta justificada.

(...) o nosso Parlamento não precisa, na realidade, de ser desprestigiado: ele prórpio se encarrega disso, gostosamente.

Por que será? Serão os ares de S. Bento? Talvez o lugar não seja propício, talvez não seja harmonioso; talvez tenha um mau feng-shui, como diriam os chineses...

...Ou talvez, afinal, e por muito que a ideia me desagrade, a nossa democracia precise de um pouquinho de músculo. Por exemplo (...) ir logo para a perda de mandato em caso de uma só falta não justificada. (...) apertar um pouco mais os critérios dos motivos familiares e dos trabalhos políticos relevantes como desculpa para não ir ás sessões. Não é que assim conseguíssemos melhores deputados - mas também, já desesperai há muito da nossa actual élite política, ou melhor, já percebi que, de momento, não a temos. Mas, pelo menos, a coisa entraria, formalmente, nos eixos; pelo menos, haveria moralidade.

Claro que estas são palavras lançadas ao vento. Nada vai acontecer, não haverá correcções ao sistema porque, evidentemente, ninguém, entre os que podem fazê-las, está interessado nelas. Isto é muito claro, penso. Teremos sempre mais do mesmo.

Por isso, já tomei uma decisão, clara e definitiva.

Quando for grande quero ser deputado.

Porque, já que não há moralidade, então, ao menos, que comam todos. Incluindo eu."

[Eu assino por baixo...]

4 Comments:

Blogger Luisa Oliveira said...

LOL. Não é assim que nós, os jovens, devemos pensar. Se não formos nós a ter esperança e força para mudar, quem terá? Eu quero ser deputada mas para mudar e melhorar o estado das coisas

2:28 pm  
Blogger Nuno Silva said...

Se fosse para deputado... não sei.
O que acho é que o Hugo apenas tentou fazer uma crítica construtiva.
Para mim esta sua crítica transmitiu-me muito coisa para além da que está escrita.
Parece-me obvio, que sendo um crítica, e conhecendo bem o Hugo, que ele se fosse para deputado teria exactamente a mesma atitude da Luísa. São duas pessoas que se interessam pelos problemas que afectam exaustivamente (se me permitam tal vocabulário) a vida da sociedade, da população que representa a Grande Nação "Portugal" (politicamente pequena, mas enfim...)!

3:49 pm  
Blogger Nuno Silva said...

Quanto ao comentário da Luísa, um sublinhado:

"Eu quero ser deputada (mas) para mudar e melhorar o estado das coisas."

3:51 pm  
Blogger Hugo da Graça Pereira said...

Bem meninos...se eu fosse deputado...acho que no princípio chorava todos os dias com a pouca vergonha que me era apresentada de baixo do nariz... mas, para me convencerem a ser deputado, era preciso apontarem-me uma arma, ou talvez não. O que pretendo dizer é que a política de hoje em dia (e falo de uma forma generalista) me mete nojo. Desculpem a linguagem, mas não encontrei outro termo... E eu não sei se era capaz de me enterrar nesse lodaçal de dogmatismo, ideias pré-concebidas, desonestidade e cunhas (há que não esquecer a bela da cunha)em que se tornou a bela da política, mesmo que fosse com os maiores ideais de "limpeza"...horroriza-me a ideia de o conformismo me transformar em algo que hoje odeio...

10:06 pm  

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