Timor
Nos últimos dias Timor tem sido a notícia de abertura dos telejornais...pelos piores motivos! Quem se aventurar a passear nas ruas de Díli, o que verá será um cenário desolador: comércio e banca fechados, ruas desertas com excepção dos "gangs" que deambulam queimando e pilhando as casas dos seus compatriotas... Há dias que se ergue fumo da capital. A escalada de violência começou com uma revolta militar e a demissão de 600 militares timorenses que se diizem vítimas de descriminação. Tudo isto graças ás tenções étnicas existentes entre as populações de este e oeste.
A tensão deflagrou com a eleição de Mari Alkatiri (perdoem-me os erros ortográficos) pela Fretilin como primeiro-ministro, sendo este de etnia de leste. Entretanto as coisas complicaram-se devido a uma suposta matança de 30 oficiais das polícias timorenses de etnia de oeste por membros das forças armadas. Os supracitados 600 militares têm posto o país, especialmente a capital, a ferro e fogo exigindo igualdade de tratamento para ambas as etnias e a imediata demissão de Mari Alkatiri. Entretanto os tiroteios são constantes e já se contam 30 mortes entre a população da capital. Face a estes acontecimentos, 25 mil pessoas abandonaram a cidade, incluindo 34 dos 84 deputados do parlamento timorense. Outras 75 mil encontram-se acampadas nos arredores de Díli pelo receio dos bandos armados que povoam a capital.
Haja algo de bom, parece que continua a existir uma personagem que reúne consenso na opinião publica timorense: o presidente da república Xanana Gusmão. O presidente tem tentado apelar a calma e a ordem pública, mas os rebeldes em conferência com o recém-nomeado ministro da Defesa, Ramos Horta, não cedem nas suas exigências. O presidente encontra-se sem dúvida numa posição difícil: embora a população timorense exiga a demisão do primeiro-ministro devido á sua clara incompetência para resolver a situação, Xanana Gusmão não quer abrir um precedente nesta ainda tão jovem democracia e fazer todo o sistema político vergar á vontade popular. Se bem que fica muito bonito dizermos que o Estado depende da autoridade popular, o facto é que, um Estado sem autoridade não consegue tomar medidas...De facto abriria um precedente e faria o povo acreditar que se uma medida que não lhe agradasse tanto fosse promulgada por um governo bastaria sair ás ruas que o governo caía....Meus caros parece-me óbvio que nenhum governo consegue governar assim. E por isso Xanana preferiu declarar o estado de emergência, o que na prática se traduz num total controlo sobre as áreas da defesa, segurança nacional e serviços de informação pelo Chefe de Estado, na sua qualidade de Chefe das Forças Armadas. Desta forma a figura de Xanana sobrepõem-se á de Alkatiri numa clara tentativa de amainar os ânimos populares. Espero sinceramente que isto resulte e que o governo de Mari Alkatiri (por muito incompetente que seja) consiga terminar o mandato na data prevista (2007) pois dará aos timorenses, esses jovens democratas, uma lição importante: o Estado precisa de estabilidade e, embora deva expressar a sua opinião e lutar pelos seus direitos, o povo não pode tentar forçar a queda de um governo á primeira coisa que corre mal...
Por outro lado, é óbvio que este tipo de situações tem repurcusões externas. Em primeiro lugar saliente-se as declarações imprudentes de Mari Alkatiri ao tornar públicas as desconfianças do governo em como a Indonésia poderia estar a apoiar os rebeldes de oeste, o que já levou a algumas respostas mais acaloradas por parte do governo indonésio. Acrescente-se ainda a preponderancia que a Austrália se anda a auto-incutir neste caso. O governo pediu ajuda externa para a solução do conflito armado e, por questões de proximidade, poderio e amizade, a Austrália foi a primeira nação a corresponder ás solicitações timorenses, facto que tem possibilitado uma certa diminuição na violência que grassa no país. Mas o facto é que a Austrália tem vindo a assumir um politica americanista no Pacífico Sul. Entenda-se por americanista imperialismo disfarçado de procura da paz mundial. E a verdade é que o primeiro-ministro australiano já se acha no direito de vir comentar publicamente a política interna do vizinho Timor afirmando que a país está a ser mal gerido... Face a isto tem-se assistido a uma tenção de bastidores no triângulo diplomático Portugal-Timor-Austrália, visto que os governos português e austrlianos se encontram numa querela diplomática sobre a influência que cada um tem sobre Timor. A predominância tinha vindo a ser portuguesa, facto facilmente compreensível já que foi a diplomacia portuguesa que fez com que as Nações Unidas e a Comunidade Internacional olhassem para Timor o que resultou na sua declaração de independência em 2002. Contudo o poderio económico australiano no Pacífico Sul está finalmente a fazer pender a balança para o seu lado e neste momento Timor está apenas a alguns passos de se tornar um protectorado australiano...
É este o triste retrato da mais jovem democracia do mundo (4 anos apenas...) que denota as dificuldades em erguer um Estado do nada no meio deste mundo que hoje é marcado pelo racismo, pela xenofobia e pelos interesses económicos...
3 Comments:
Calma! Timor ainda é independente e a liberdade tem de ser gerida. É isso que eu acho que os Timorenses estão a aprender: a ser livres! Se se têm de tomar medidas? Não podia concordar mais com isso. Mas não são só Portugal e Austrália no terreno: a Nova Zelândia e Malásia também lá estão. E só mais um dado importante: o primeiro ministro Mari Alkatiri foi agora a um congresso do que é claramente o maior partido de Timor (Fretilin) que lhe deu carta branca.
Vamos ter esperança! O Ramos da Horta é um bom ministro que apesar de estar com duas pastas muito difíceis (Negócios Estrangeiros e Defesa) tem reunido bastante apoio da população geral. As coisas estão difíceis mas mais uma vez Timor Lorosae pode contar com o apoio internacional.
Eu, pessoalmente, acho que grande parte do erro está em termos (nós, países europeus) querido implantar um sistema nosso num país que não estava plenamente preparado para o receber. Devíamos ter ido com mais calma, ajudar a compreender lá, no terreno, o que é e como se vive em Democracia, ensinar, apoiar. E isto demora muitas gerações. Será que nós, que há mais de 30 anos vivemos neste sistema, agimos sempre em conformidade com ele? Será que o vivemos e preservamos sempre bem? Demora… Mas se começarmos hoje, levará certamente menos tempo do que se começarmos apenas amanhã…
O erro para mim não foi do sisema implantado, já que não me parece viável utilizar sistemas transitórios...para mim o erro está, um vez mais, na pressa que a ONU teve de retirar os capacetes azuis e os observadores internacionais. Não me percebam mal, acho que o trabalho das Nações Unidas é do mais louvável que existe, mas o facto é que este já não é o primeiro caso em que a ONU é acusada de se retirar muito depressa. Não me perguntem as razões, talvez queiram apresentar resultados rapidamente, ou talvez confiem em demasia nas populações, o facto é que abandonam as áreas problemáticas mais cedo do que o que seria aconselhável. Nova Zelândia e Malásia Ana?? Ambos um espécie de vassalos da Indonésia e Austrália simultâniamente... Sim Ana, claro que precisam de tempo... o problema é, enquanto eles não se decidem morrem timorenses. Ninguém duvida das capacidades de Ramos Horta e Xanana Gusmão, o problema é que ambos facem parte de uma facção pró-Portugal que desagrada á Austrália... E pensar que tudo isto se resume, em último plano, ao petróleo dos mares timorenses...
A independência traz sempre muitos problemas, que os novos partidos nem sempre estão à altura de os resolver com calma e tempo.
Este não é o primeiro caso que involve Portugal. As antigas colónias portuguesas também tiveram que ultrapassar inúmeros problemas que chegaram com a independência.
Talvez esteja a alargar este problema de Timor para outros horizontes, mas não quero que passe despercebido. Angola, por exemplo, com a sua constituição e democracia própria, tornou-se num saco cheio de problemas. As minas de diamantes, ouro, e outros metais valiosos como a prata, foram mais que um motivo para que os países JÁ DESENVOLVIDOS, quisessem ampliar o seu desenvolvimento e riqueza, apoderando-se da riqueza dos países EM DESENVOLVIMENTO, ou seja, dos países que precisavam dessa sua riqueza para progredirem com vista ao desenvolvimento e sustentabilidade dos países JÁ DESENVOLVIDOS.
De facto, é triste! É triste porque os países que apenas precisam de manter os seus níveis de produção (e não aumentá-los), não deixam os países países que ainda não atigiram esse nivél de desenvolvimento, desenvolverem-se como eles.
Isto tudo, não refiro por acaso. Esses países, maioritariamente africanos tiveram que ir em busca da estabilidade, e serem aquilo que são hoje. Tudo bem, com problemas, mas todos têm problemas, não fossem eles que permitissem a progressão.
É neste contexto que, Timor, precisa de estabilidade política, e não são os conflitos externos, que afectam a "integridade interna" de Timor, que vai ajudar no difícil caminho para a tal estabilidade tão desejada.
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